Cicatrizes

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Falar de cicatrizes é sempre doloroso, não é mesmo? Mas David Small aborda o tema de forma singela e magnífica em seu livro Cicatrizes, lançado pela Editora Leya.

Entramos aos poucos na vida de David, um garoto talentoso e solitário, que vive numa família silenciosa e autodestrutiva. Sua mãe vive sempre preocupada com dinheiro e seu pai não sabe bem o papel que exerce naquela casa, onde o silencio toma conta das paredes e moveis antigos. Certo dia, David precisa fazer uma cirurgia para reparar um pequeno problema na garganta, mas quando acorda descobre que uma de suas cordas vocais havia sido retirada o tornando mudo. O silencio que era corriqueiro agora tomava conta do seu corpo, além de uma imensa cicatriz que marcara pra sempre seu pescoço. Tempos depois, David descobre que na verdade teve um câncer e que seus pais não tiveram coragem de contar. A partir daí, uma série de problemas e questões familiares são postas a prova.

Small recria sequências cinematográficas em formato graphic novel. Seus traços são melancólicos, criativos e repletos de sentimento. Sua obra é considerada revolucionária por importantes desenhistas, ganhou prêmios como Caldecott Medal, Christopher Medal e E. B. White Award por seus trabalhos de ilustração em livros. Atualmente ele e a esposa vivem no sudoeste de Michigan.

Segundo Françoise Mouly, editora de arte do The New Yorker, Cicatrizes recebeu o título correto, pois o autor penetra no passado e, com muita arte, fecha as feridas infligidas em uma criança por pais cruéis e nada amorosos. Tão intensamente dramático como um romance gravado em madeira da era do cinema mudo e tão fluído como os contemporâneos mangás japoneses.

Será que estamos sempre cobrindo a ferida? Porque não enfrentar nossos medos, desilusões e angústias? Small criou uma obra capaz de mexer com o seu imaginário ao mesmo tempo em que o transporta a sua realidade. É impossível não se emocionar ou se irritar com aquela família beirando ao caos, mas que prefere silenciar no jantar e viver dia após dia com a ideia fixa de que o mais importante é ter do que ser.

Repleto de inquietações, um grito desesperado de socorro, uma inquietude descabida. Os momentos passam como as páginas e parece que nada muda. Small parece nos dizer muito num livro onde as imagens se sobrepõem as palavras. Parece nos dizer que cicatrizes não podem ser escondidas, mesmo que pensemos que sim.

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Sobre Felipe Brandão

Sou jornalista, apaixonado por livros, séries, música, viagens e comportamento. Acredito na magia dos encontros verdadeiros e que escrever purifica a alma, acalma o coração e enche a vida de esperança. Em 2013, criei o @EsquecaUmLivro e desde então tenho tido experiências incríveis. Você também pode me encontrar nas redes sociais como @EuFeBrandao.
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