O reencontro

Ele não sabia como contar a todos que não era mais o mesmo. “Eles não irão entender”, pensava enquanto comprava a passagem de ônibus para sua cidade natal. Quase podia ouvir Sinead O’connor cantando Thank you for hearing me e seu coração acelerado, dilacerado, se preparava para aquele reencontro.

Ele tinha deixado todos depois de um vendaval de emoções. Eles nunca foram o que ele esperava, mas quem é exatamente o que se espera? E ele não sabia exatamente como agir e o que esperar. A viagem era longa e sabia que poderia dormir, ler um livro, escutar músicas, mas nada poderia calar a voz que teimava em falar, ansioso por rever todos e saber definitivamente como eles o viam depois de tantos anos.

As paisagens dos prédios ficavam para trás e algo novo se abria à sua frente, sem que ele pudesse entender. Todos esperam sempre muito e muito, expectativas elevadas e sonhos desperdiçados. Com ele não fora diferente: primeiro lugar no colégio, tinha talento apurado para as artes, um bom gosto nato e uma vocação para felicidade. Era do tipo que chegava chegando, sua presença nunca era ignorada e agora estava num ônibus, sem nada nas mãos. “Não conquistei nada”, lamentava no caminho de volta.

Pensou no quanto queria que algumas coisas tivessem sido diferentes, olhou pela janela e sentiu o vento batendo em seu rosto. Lembrou das viagens de carro para o litoral, onde costumada colocar as mãos para fora da janela e sentia uma brisa rejuvenescedora. Lembrou que as tardes de domingo eram sempre silenciosas, mas sempre tinha gente por perto. Que o bolo de laranja da mamãe tinha um gosto peculiar, mas que o suflê de maracujá era o melhor do mundo. Que adorava contar os finais dos filmes e que eram os únicos a pendurar chocolates na árvore de natal.

E por um instante sentiu falta de tudo, do que foi e do que poderia ter sido. E o sol bem a sua frente timidamente começava a se por. E a esperança parecia renascer, mesmo que por instantes. Ele adormeceu profundamente por alguns minutos e quando acordou não sabia se era sonho ou realidade tudo aquilo. A sensação era boa. O ônibus parou numa rodoviária pequena e lá estavam todos.

Eles também não sabiam o que dizer, mas estavam ali. E no final, juntos tinham conquistado tanto, que mal cabia nas mãos.

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Sobre Felipe Brandão

Sou jornalista, apaixonado por livros, séries, música, viagens e comportamento. Acredito na magia dos encontros verdadeiros e que escrever purifica a alma, acalma o coração e enche a vida de esperança. Em 2013, criei o @EsquecaUmLivro e desde então tenho tido experiências incríveis. Você também pode me encontrar nas redes sociais como @EuFeBrandao.
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Uma resposta para O reencontro

  1. Simone Oliveira Pereira disse:

    Sempre profundo. Me identifico muito com a escrita.

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