Eu preciso dizer que te amo

Não havia espaço. Não cabia mais no quarto, naquele amontoado de coisas que já me pertenceram um dia. Quando olho pela janela daquele quarto parece que observo a vida de outra pessoa, alguém que durante anos gritava por uma outra vida. Rever minha família sempre foi algo muito importante para mim, sempre que vou, quero voltar, sempre que volto, conto os dias para tudo de novo. Na última visita levei uma carta para alguém que nem sabia o quanto é especial. Sabe quando você tem muito a dizer, mas a voz não sai? Você me entende? Já passou por isso?

Algumas relações são construídas numa rocha firme, outras infelizmente como um castelo na areia. Naquela casa estilo londrino, sempre foi o eu queria ter dito. Frases incompletas e o som que nunca ecoava o suficiente para que o outro ouvisse. Desencontros ocorriam cotidianamente na sala de jantar. Mas nem sempre foi assim, houve a época de presentes na árvore e de histórias para dormir. O silêncio veio com o peso da vida.

Não costumo julgar as razões, mas houve uma época que sentia que precisava dizer o que não fora dito, como Fernanda Young em seu livro Tudo que você não soube. Às vezes para continuarmos é necessário desabar palavras com todas as letras. Aquela máxima de deixar subentendido não funciona em todas as histórias. Cedo ou tarde a sujeira sai debaixo do tapete e pode ter uma visita na sala. O falecido professor Randy Pausch, famoso pela palestra e livro A lição final costumava dizer: se você tem um elefante na sala, apresente-o. E foi seguindo os conselhos de uma amiga que na ultima visita levei a tal carta. Se o dom da oratória foi dado ao meu irmão, me restava apenas escrever. Aproveitei o batizado do filho da melhor amiga para marcar a conversa.

A casa já não era a mesma, as cores estavam vibrantes como se houvesse vida ali, móveis antigos disfarçavam-se entre os novos como em Volver do Almodóvar. E tive a impressão de que tudo poderia ser diferente naquele quarto com vista para a jabuticabeira. Sentia que poderia proferir qualquer palavra sem dor e receio, como o mudo que voltava a falar. E quando o vi, voltava finalmente para conhecer o amor, numa luminosa trégua para uma vida triste e opaca. O resultado foi um abraço e a entrega da carta.

Queria ter dito eu te amo, mas a fala não saiu. O eu se perdeu em meio às cores vibrantes na parede. Eu achava que cada parede devia ter uma cor, que precisávamos de móveis novos, que a jabuticabeira não poderia ser podada, entre outras coisas. Tudo estava como eu sonhava, mas eu não cabia mais no quarto. Parti no mesmo dia.

De volta ao meu apartamento em São Paulo, descobri uma carta na minha mochila. Uma resposta prévia do que eu havia escrito na que deixara. Quando abri, o envelope continha uma folha A4, em branco e um P.S assim: Começamos do zero então?

O eu te amo não saiu. Mas começamos de novo. Do zero.
Te amo, pai!

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Sobre Felipe Brandão

Sou jornalista, apaixonado por livros, séries, música, viagens e comportamento. Acredito na magia dos encontros verdadeiros e que escrever purifica a alma, acalma o coração e enche a vida de esperança. Em 2013, criei o @EsquecaUmLivro e desde então tenho tido experiências incríveis. Você também pode me encontrar nas redes sociais como @EuFeBrandao.
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7 respostas para Eu preciso dizer que te amo

  1. dscruz disse:

    Parabéns pelo texto.

  2. Ana Rita disse:

    Nossa. São coisas assim que confirmam o meu amor pela leitura.
    Ler algo verdadeiro ou fictício …
    Mas me ver em partes, sentir a emoção do outro transmitida em palavras .
    Quem dera todos começarmos do zero com aqueles a quem amamos.
    Aí tem parte de mim tb . Então quem sabe não começo do zero
    , uma hora dessas.

  3. Mário Augusto disse:

    Linda crônica!
    Sensível, empolgante e verdadeiramente assustador…
    Bom encontrar sentimentos que muitas vezes as palavras não dão conta!

  4. Posso continuar sendo sua amiga pra vida inteira? Pro orgulho de você não acabar nunca? ❤

  5. Felipe Brandão disse:

    Pode @Mayara 🙂

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