Pertencer ou não pertencer?

A grande maioria luta a vida toda para pertencer a alguém, algo, algum grupo ou qualquer coisa que aplique a palavra pertencer. Clube da luluzinha, associações, chapa da escola, coral da igreja, teatro, amigos seletos e outras bobagens do mundo moderno. Não posso fechar os olhos e negar que nunca tenha tentado participar de grupos e me sentir aceito. Fiz e assumo que foram em vão todas as tentativas de pertencer a algo quando na verdade  me sentia indiferente. Sempre que me obrigava FICAR imaginava como seria IR. E fui vivendo assim com essa ânsia de pertencer e não pertencer. Ficar e ir. Acelerar e aquietar. Ter e não ter.

Conversando sobre isso com um amigo, ele me indicou o A descoberta do mundo, de Clarice Lispector, que foi responsável por uma série de inquietações. 

“Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.” “Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro”. 

Às vezes sinto que não pertenci a nada e os dias passam como se eu não estivesse presente neste momento. Olho em volta e acho tudo tão sem graça, sem cor e por mais que mensagens positivas flutuem sobre a minha cabeça, sinto que tudo perde o sentido de uma hora para outra. Um medo descabido de caber, fixar-se em algo e com a monotonia me tornar infeliz.

Recordo que durante anos frequentei a escola dominical, pois era o único grupo a qual eu definitivamente achava pertencer. Toda aquela historia não fazia muito sentido para mim, mas achava que finalmente havia encontrado o meu lugar no mundo e sentia-me de fato seguro. Amparado pela fé, a igreja e meus amigos da congregação, me sentia em paz. Mas toda vez que deitava a cabeça no travesseiro sabia que não cabia mais naquele espaço, sentia que minhas pernas já ultrapassavam a cama. Sentia que precisava ir em busca do  “maravilhar-se” de Elizabeth Gilbert , pois já estava cansado de andar feito Holden (personagem de o Apanhador no campo de centeio).

E a pergunta sempre voltava: Pertencer ou não pertencer?

O maior problema de não pertencer é o desamparo. De ter alegrias solitárias, e Deus sabe o quanto é patético essas alegrias no escuro do quarto. De sentir-se pequeno diante das coisas. De achar que o sentido da vida é enganar a morte.

Tenho tentado fixar os pés no chão. Encarar a vida de frente, por mais piegas que isso possa parecer. Como diz Marina Lima em sua canção Sugar: A vida pode ser feliz, mesmo por instantes, mesmo por um triz. Então, acho que vale a pena pertencer, mesmo que por alguns minutos.

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Sobre Felipe Brandão

Sou jornalista, apaixonado por livros, séries, música, viagens e comportamento. Acredito na magia dos encontros verdadeiros e que escrever purifica a alma, acalma o coração e enche a vida de esperança. Em 2013, criei o @EsquecaUmLivro e desde então tenho tido experiências incríveis. Você também pode me encontrar nas redes sociais como @EuFeBrandao.
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