Bate-papo “Esqueça um livro”.

yoga_monja

Autora de livros como Sempre Zen, Viva Zen e Zen Yoga, Monja Coen é um exemplo de inspiração, fé, dedicação e coragem. Nascida em 30 de junho de 1947 é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede no Pacaembu, São Paulo. Criada no Cristianismo iniciou seus estudos budistas no Zen Center of Los Angeles, sendo ordenada monja em 1983. Partiu para o Japão no mesmo ano, onde permaneceu por doze anos, sendo oito dos primeiros anos no Convento Budista de Nagoia.

Participou de vários programas de formação para monges tornando-se mestre da tradição Soto Shu. De volta ao Brasil em 1995, liderou atividades no templo Busshinji, no bairro da Liberdade em São Paulo, durante seis anos. Em 1997 foi à primeira mulher a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil. Atualmente participa de encontros educacionais, religiosos e promove a caminhada Zen em parques públicos, com o objetivo de divulgação do princípio da não violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres vivos. Fonte: Comunidade Zen Budista

Em seu livro Sempre Zen você diz que o segredo da vida é estar aberto ao momento e a todas as possibilidades. É possível estar conectado o tempo todo no Agora?

É impossível não estarmos no Agora.  Entretanto, nossa mente  simula um antes e um depois e acreditamos nessa ilusão.  Assim, quando acreditamos na ilusão da mente ficamos desiludidas, desiludidos.  Crês no falso.  E com isso sofremos. Chamo a isso de Presença Absoluta.

Para o filósofo francês André Comte-Sponville a felicidade é algo inalcançável, pois desejamos tanto algo e quando conseguimos paramos de desejar. Você acha que a felicidade é algo surreal? Seria algo inalcançável?

Depende do que chamamos de felicidade.  A palavra tem a mesma origem de fértil, de frutífero. No Budismo falamos em alcançar um estado de completude, de tranquilidade, de Nirvana.  Esse estado independe do que alcançamos ou não alcançamos.  É transcender o mundo do apego. Perceber que desejamos algo, que obtemos e então passamos a desejar algo mais, se refere ao que em Psicologia se chama de “eu ideal”- que está sempre se reformulando.  Isso é bom. Não ficamos estagnadas, estagnados.  Esse processo em si pode ser de grande contentamento e felicidade.

Como você vê a psicologia e a psiquiatria como auxilio da dor humana?

Psicologia e Psiquiatria são parte da ciência contemporânea. Que bom que existem.  Que bom que nós seres humanos somos capazes de compreender um pouco melhor nossa própria mente e a assim obter libertação.  Muito da Psicologia e da Psiquiatria atuais tem encontrado afinidades com ensinamentos de Buda e práticas meditativas como auxiliares de curas ou prevenções de doenças tanto físicas como emocionais. Antigamente  religiosos, oráculos, curadores usavam da sabedoria superior para auxiliar seres humanos a lidar melhor com suas dores e curar os males do mundo. Acredito na Ciência.  Acredito nas descobertas  e nas parcerias entre Ciência e Religião.

Se todo o sofrimento nasce do desejo. Como não desejar numa sociedade tão consumista como a nossa, onde ser e ter quase se equivalem em termos?

Desejo é uma coisa.  Apego é outra.  O sofrimento surge do apego e não do desejo natural e simples em si mesmo.  Posso perceber meus desejos, por qualquer coisa ou pessoa. Posso desejar ter um templo, por exemplo.  Posso desejar me alimentar melhor.  Posso desejar alcançar a iluminação suprema.  Posso desejar consumir de forma responsável. Apego é como se passasse melado, cola na mão. Ficamos grudados, limitados, causamos sofrimento e sofremos. Livrar-se dos apegos é estar satisfeita, satisfeito com a realidade tal qual é. Ma isso também não implica em não termos sonhos, objetivos, planos, ambições benéficas.  O ponto principal do consumo é que seja responsável.  Que avaliemos a quem estamos beneficiando, ou não, com nossas escolhas.

Buda dizia que “A vida dos seres humanos é como o processo de tecedura, termina o trabalho com delicados fios, tecidos do inicio ao fim.” É possível encontrar paz e leveza mesmo em situações de extrema dor?

Esta tecedura é sutil e está interligada a tudo e todos.  Vemos hoje no Japão, com a catástrofe do terremoto, do tsunami e da possível contaminação nuclear uma situação de grande dor e tristeza. Ao mesmo tempo notamos como as pessoas se unem, se cuidam, cozinhando, limpando, carregando baldes…  O trabalho de reconstrução e a ajuda que podemos fazer juntos.  Trabalho de Bodisatva.  Do não eu.  O eu não fica em primeiro lugar.  Percebemos o todo.  Nossa dor e sofrimento não são únicos.  Saímos do casulo imaginário de um eu separado e passamos a cuidar do todo, da vida.  Ao cuidar da vida cuidamos de nós mesmas. Até no sofrimento, na extrema dor podemos encontrar paz e leveza.  Apreciar a experiência única da vida humana, com todas suas nuances e sorrir ao novo amanhecer.

Eckhart Tolle em seu recente livro Um novo mundo – despertar de uma nova consciência explica que a humanidade está vivendo um momento único, o despertar para uma nova consciência. Você sente essa transformação?

Acredito que todos sentimos.  Acredito também no DNA humano.  Este DNA quer continuar vivo.  Para sobreviver se faz necessário mudanças de consciência.  A percepção do eu maior.  De que somos a vida da Terra.  Somos a vida da superfície da Terra.  A nossa sobrevivência, como espécie, depende de nos cuidarmos mutuamente.  Tanto entre seres humanos como entre seres humanos e todas as outras formas de vida, que são nossa própria vida.  Esta mudança de um povo apenas, o povo da Terra, está ocorrendo.  Além de fronteiras, de etnias, de culturas – necessárias e belíssimas na sua diversidade – também nos percebemos interligados e inter conectas a tudo e todos.  Assim cuidamos da vida com ternura e respeito. Esta a mudança de consciência mais importante: somos a vida da Terra. Não há nada por que matar ou morrer.  Mas há o viver para o bem de todos os seres.

Como viver sempre Zen no mundo atual?

Estando presente no mundo.  Este mundo é bom.  Este mundo é lindo.  Como dizia Buda “minha Terra Pura jamais será destruída.” Podemos fazer de cada instante a sacralidade da vida.  Depende de cada um, de cada uma de nós. Respiração consciente. Foco, atenção.  Concentração e Zen – meditação.  Além do eu e do não eu.  Samadhi profundo.  Identificação com o todo.  Ação local que beneficia.  Testemunhar e agir amorosamente…

O sociólogo Eduardo Giannetti diz que sem o autoengano a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Vivemos o tempo todo na tentativa de enganar a morte? Vivemos nesse autoengano?

Não me parece que queiramos enganar a morte. A morte é necessária e bem vinda.  Precisamos perceber que vida-morte é de suprema importância.  Temos de compreender, penetrar neste processo incessante de  viver-morrer. É claro que não caímos na inação pensando “já que todos vamos morrer não faço nada”.  Pelo contrário temos de nos lembrar que vamos morrer sim, mas também que a vida é eterna. A vida em suas múltiplas faces, continuará a se manifestar.  Outro aspecto importante é da interligação entre tudo – passado, futuro, presente.  E as relações entre o que falamos, pensamos e fazemos, que altera a tecedura da vida.  Assim, sentindo-nos co-responsáveis pela realidade que vivemos, como fazer destes breves instantes uma tecedura de beleza e de ternura inigualáveis?

Sabemos que a vida é dinâmica. Como lidar com essas mudanças? Ao mudar, mudamos tudo ou é a mudança que nos muda?

Mudamos e somos mudados.  Transformamos e somos transformadas.  Nada fixo, nada permanente. Mestre Dogen Zenji Sama (fundador da tradição Soto Zen Budista no Japão, século XIII) escreve: “Algumas vezes a flor do Darma nos gira (transforma). Outras vezes nós giramos a flor do Darma. E há momentos que a flor do Darma gira a flor do Darma.” Há momentos em que a mudança muda a mudança. Mágico, belíssimo é entrar na correnteza e fluir com o fluir da vida.

Entrevista dada originalmente para meu antigo blog Autoajude-se.

Anúncios

Sobre Felipe Brandão

Sou jornalista, apaixonado por livros, séries, música, viagens e comportamento. Acredito na magia dos encontros verdadeiros e que escrever purifica a alma, acalma o coração e enche a vida de esperança. Em 2013, criei o @EsquecaUmLivro e desde então tenho tido experiências incríveis. Você também pode me encontrar nas redes sociais como @EuFeBrandao.
Esse post foi publicado em Entrevista. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s