Ilusões no varal

Pendurando as ilusões no varal percebi que tenho que seguir com os outros afazeres domésticos, os da vida cotidiana. Resolvi que é o momento de retirar o coração do congelador e colocá-lo um pouco no forno e sinceramente espero não passar do ponto, pois sou um desastre na cozinha.

Cortar em pedaços o orgulho e colocar uma pitada de sal ou açúcar? Não recordo direito a receita. Vasculhei a casa toda atrás de um manual de sobrevivência, sabia que tinha comprado em algumas de minhas andanças, mas não achei. Encontrei algumas receitas de amor eterno, felicidade desesperadamente e como ganhar o primeiro milhão de reais, mas aquilo que procurava não encontrei. Deduzi por instantes que seria um incômodo ligar para alguns amigos para perguntar se é necessário passar as ilusões antes de guardá-las na gaveta, se poderia colocar sal no orgulho ou quanto tempo o coração deveria ficar no fogo para que ele ficasse ao ponto. Além, é claro, de muitas outras dúvidas que tenho todos os dias e nenhum livro de receitas me ajuda, exceto aquele que perdi.

Enquanto as ilusões estavam penduradas, precisava ocupar minha mente com o resto do dia, antes de pensar no jantar. Tentei ligar a TV, mas ultimamente tudo parece tão sem graça e repetitivo. Muito mais repetitivo que meu próprio dia. Sinto falta daquele tempo em que sempre tinha alguém para decidir por mim. “Hoje teremos para o jantar risadas altas, regadas de esperança enlatada. E para beber, suco de caixinha com sabor artificial de estabilidade econômica, pois a vida anda muito desequilibrada”.

Sempre após o jantar vinha minha vó metida a filosofa, com suas frases prontas dizendo que o café teria que ser amargo pra gente nunca achar que a vida era fácil demais. E continuávamos naquela tranquilidade com uma mesa sempre farta de sonhos e silencio. E se existe algo que realmente aprendi na cozinha, foi fazer um café extremamente amargo que mesmo com açúcar refinado, ele sempre continua amargando na garganta.

Voltei para a cozinha na esperança de criar uma receita inovadora, não é exatamente isso que exigem de nós todos os dias? Inovação e criatividade? Tentei de todas as formas criar algo diferente, que me trouxesse prestigio e admiração. Mas, como sempre misturei paixão com amor, amizade com negócios, sonhos com dinheiro, sentimentos com trabalho; uma mistura gastronômica sem sentido e que no mundo de hoje, tem um gosto horrível.

E o vento, foi o único culpado de tudo. Levou as ilusões do varal, apagou o fogo do fogão. A mistura na panela não cozinhou mais, o coração no forno passou do ponto e para o jantar restou apenas o café amargo da manhã. O convidado não apareceu e nem ao menos telefonou desmarcando. E de repente lembrei que o caderno de receitas estava o tempo todo comigo, escondido no avental pendurado atrás da porta da cozinha. Mas, já passava da meia noite…

ilusoes

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Sobre Felipe Brandão

Sou jornalista, apaixonado por livros, séries, música, viagens e comportamento. Acredito na magia dos encontros verdadeiros e que escrever purifica a alma, acalma o coração e enche a vida de esperança. Em 2013, criei o @EsquecaUmLivro e desde então tenho tido experiências incríveis. Você também pode me encontrar nas redes sociais como @EuFeBrandao.
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Uma resposta para Ilusões no varal

  1. Eu tenho tanto orgulho de ter você na minha vida!
    Que texto mais lindo, Fê…

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