“Esqueça um livro” com Soninha

O ano era 2004. Eu tinha acabado de entrar na faculdade de Jornalismo e tinha um mundo de oportunidades pela frente. Não tenho como contar o real significado daquela conversa sem me expor um pouco. Todos nós temos nossas histórias e nossa trajetória faz parte do que somos. Mas naquele ano, envolvido em tantas possibilidades, sentia o coração apertado e angustiado. Uma excessiva melancolia tomava conta dos dias e só conseguia contar as horas para que tudo terminasse. Era um momento de transição do que eu achava certo, para uma vida que julgavam ser errada. Foi um momento difícil e decisivo.

Recordo de ter voltado de São Paulo, após um final de semana dionisíaco, e ter ido direto para o Campus da Universidade. Chovia muito, mas cheguei a tempo para a semana de Comunicação, que valia nota e horas em atividades complementares. Entrei sem nenhuma expectativa a fim de cumprir o protocolo. No palco, estava a ex-Vj da MTV Soninha, que na época abordava a polêmica matéria da Veja em que foi capa. Foram necessários poucos minutos para entender que ela não estava ali somente para falar sobre ética. Sua missão transcendia o obvio. Ela falava sobre a vida. E por mais clichê que possa parecer, aquele bate-papo me proporcionou “um primeiro despertar”.

Naquele teatro senti que existiam de fato novos caminhos, além daqueles que já haviam sido traçados pra mim. E como escreveu muitíssimo bem Elizabeth Gilbert, “depois de me mostrarem opções vou sempre preferir ter escolha na vida: escolhas expressivas, individualistas, inescrutáveis e indefensáveis, às vezes talvez arriscadas, mas todas minhas”. Seria necessário um acúmulo exacerbado de palavras pra tentar exemplificar o quanto foi importante aquele encontro. Aquele passo que dei ao sair do evento foi apenas o primeiro passo para uma nova vida.

Na semana passada, a reencontrei em frente à sua casa em São Paulo para esquecermos um livro e conversamos sobre literatura. Foi novamente um encontro inspirador! Percebi que temos em comum o mesmo gosto literário e questionei sobre como se manter positivo em relação à vida consumindo obras tão avassaladoras. E ela respondeu que aprendeu que é impossível que tudo vá mal. Quando algo ruim está acontecendo, temos que ter em mente que nem tudo acabará mal e vice-versa. Talvez este pensamento seja reflexo de sua prática budista ou de um olhar atento sobre si e o outro.

Juntos esquecemos “Por que sou budista?”, livro escrito por ela, onde explica como foi o seu primeiro contato com a religião, por que se interessou e como se identificou. “A mente não produz apenas nossas emoções e sensações, mas toda a nossa experiência, todos os fenômenos que constituem a vida”.

Soninha contou que sempre esteve cercada pelo universo literário, que os almoços em sua casa eram sempre com livros a mesa. Sua infância foi marcada pela coleção “Para gostar de ler”, onde destaca os primeiros quatro volumes dos escritores Carlos Drummond, Fernando Sabino, Rubem Braga e Paulo Mendes. Diz que não acompanha a lista de mais vendidas e que escolhe um livro atraída por alguma indicação de amigos ou na própria livraria. Mas isso não impede que o livro escolhido possa ser um best-seller, como aconteceu com o livro “Quase tudo”, de Danuza Leão, que comprou após vários amigos indicarem a obra. Acredita que todos devem ter a experiência de se fascinar com a leitura e que a única maneira de criar esta experiência é tornando o acesso mais fácil. Se pudesse indicar experiências literárias, ela indicaria “A revolução dos bichos”, de George Orwell; “Pequeno Lord”, de Frances Hodgson Burnett e “Sagarana”, de Guimarães Rosa. “Que assombro é este que proporciona Guimarães?”. Questiona ao fim do bate-papo. Vamos descobrir?

Foto via Facebook Soninha Francine

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Sobre Felipe Brandão

Sou jornalista, apaixonado por livros, séries, música, viagens e comportamento. Acredito na magia dos encontros verdadeiros e que escrever purifica a alma, acalma o coração e enche a vida de esperança. Em 2013, criei o @EsquecaUmLivro e desde então tenho tido experiências incríveis. Você também pode me encontrar nas redes sociais como @EuFeBrandao.
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