Bate-papo “Esqueça um livro”.

Lembro da primeira vez que assisti “Tudo que é sólido pode derreter”, na TV Cultura. Achei a série genial e fiquei dias me perguntando por que não tive aquela ideia antes. Esta semana conversei com a atriz Mayara Constantino, que interpretava Thereza, e com o roteirista da série Rafael Gomes. Foram 13 episódios, onde acompanhamos a aproximação da protagonista à obra em questão, traçando paralelos lúdicos e sentimentais. Eram amplamente exploradas as possibilidades cênicas e dramáticas do encontro entre a realidade juvenil retratada e o vasto mundo ficcional presente na obra literária.

EL: Como foi interpretar Thereza? Sente falta?

M: Foi incrível! Ela passava por situações fora da realidade, como por exemplo quando encontrava com os personagens dos livros e, ao mesmo tempo, tinha que resolver questões reais da época adolescente. Sinto muita falta e a Thereza está no meu coração!

EL: Em relação ao seu hábito de leitura, você sempre esteve envolvida com a Literatura?

M: Sim, meus pais sempre incentivaram a leitura em minha casa. Lembro-me quando a minha mãe me presenteou com livros da Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Silvia Orthof. Guardo até hoje todos eles com muito carinho.

EL: Quais são seus autores e livros favoritos?

M: São muitos! Atualmente estou encantada com Albert Camus e li bastante, esses últimos meses, Eduardo Galeano. Mas não posso deixar de citar Leminski, Clarice Lispector, Shakespeare, Cortázar e Drummond. (E por aí vai…rs)

EL: A série abordou alguns clássicos de uma forma lúdica e despertava a curiosidade. Você acha que a escola desenvolve um papel contrário, exigindo a leitura de clássicos pra quem ainda não tem o hábito de leitura?

M: Acredito que a escola poderia sim abordar a literatura de uma maneira mais natural, deixando o jovem mais “confortável” para sentir qual o momento de mergulhar nesse mundo. Por outro lado, acredito também que não se deve cobrar uma postura apenas da escola, mas que a literatura esteja presente dentro de casa, principalmente agora com o fácil acesso à internet e aos aparelhos portáteis.

EL: Dos livros da série, qual te marcou mais?

M: “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector.

EL: Que livro você está lendo no momento?

M: Leio vários ao mesmo tempo: “Um útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas; “Mrs. Dalloway”, de V.Woolf e “O lobo da Estepe”, de Hermann Hesse.

EL: Você acompanha a lista de mais vendidos?

M: Nunca acompanhei. Visito muito livrarias e compro ou por curiosidade/ vontade, ou por indicação de algum amigo.

EL: Você pode indicar 5 livros que considera essenciais para quem quer entrar no universo literário?

M: Nossa! Que difícil! Hahaha! Bom, vamos lá:

“Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe; “Além do bem e do mal”, de Nietzsche; “Dom Casmurro”, de Machado de Assis; “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector; “O jogo da amarelinha”, de Julio Cortazar.

EL: A série surgiu a partir do curta-metragem de mesmo nome. Como foi esta transição para a TV?

RG: Em termos negociais, foi um projeto apresentado por nós, os criadores, para a TV Cultura e que, depois de aprovado, foi produzido de forma independente. Em termos artísticos, foi complexo e muito prazeroso, porque expandir um universo ficcional é sempre estimulante. O curta metragem possuía uma premissa dramática que, por sua essência, já parecia muito “serializável”. E se em cada novo episódio a protagonista fosse ler um novo livro, as possibilidades que essas obras em si já abririam tornavam nosso trabalho de criação muito plural – e abastecido pelo melhor da literatura, ou seja, estávamos na companhia dos mestres!

EL: Como era o processo criativo? Primeiro pensava na história de Thereza e depois encaixava os clássicos?

Não, o contrário. Os livros eram e são o centro do projeto. Então a partir do cânone literário, daquilo que é estudado nas escolas e que todo mundo merece conhecer, buscamos as obras que poderiam render boas histórias para Thereza. O universo literário é que pautou a construção e os enredos do mundo ficcional de Thereza.

EL: A série abordou alguns clássicos de uma forma lúdica e despertava a curiosidade. Você acha que a escola desenvolve um papel contrário, exigindo a leitura de clássicos pra quem ainda não tem o hábito de leitura?

RG: Contrário de “lúdico” e de “despertar a curiosidade”? Difícil dizer. Difícil falar em “contrário”. Acho que diferentes escolas utilizam diferentes métodos para aproximar os jovens da literatura. O ponto é que, em geral, é um aproximação difícil mesmo. Pela fase da vida, pelo excesso de estímulos no mundo exterior, pela necessidade de silêncio e concentração (artigos cada vez mais raros) para se deixar descobrir dentro de um livro e tantos etceteras. O fato é que eu acho que a leitura dos clássicos, não obstante, pode e deve continuar sendo solicitada e estimulada. E se o nosso projeto puder desempenhar um papel de auxílio nesse processo, ótimo. É pra isso que ele foi concebido.

EL: E como surgiu a ideia para o livro “Tudo que é sólido”?

RG: Foi um convite da editora Leya, feito após o lançamento da série. Eles estavam a procura de um título para entrar no mercado infantojuvenil e apostaram nessa transposição da série para a literatura.

EL: Existem planos pra série voltar?

RG: Infelizmente, não mais. Passou muito tempo, os atores cresceram. Tínhamos uma 2ª temporada toda desenhada, batalhamos muito por ela, mas infelizmente não conseguimos viabilizar. Para “Tudo O Que É Sólido” ter continuação na esfera do audiovisual, algumas coisas teriam que mudar (Theresa teria que estar na faculdade, por exemplo). Não é impossível, mas é improvável. Um segundo volume do livro, no entanto, será sempre uma possibilidade.

Quer saber mais sobre a série? Clique na imagem abaixo e assista ao primeiro capítulo 😉

Image

Anúncios

Sobre Felipe Brandão

Sou jornalista, apaixonado por livros, séries, música, viagens e comportamento. Acredito na magia dos encontros verdadeiros e que escrever purifica a alma, acalma o coração e enche a vida de esperança. Em 2013, criei o @EsquecaUmLivro e desde então tenho tido experiências incríveis. Você também pode me encontrar nas redes sociais como @EuFeBrandao.
Esse post foi publicado em Entrevista. Bookmark o link permanente.

5 respostas para Bate-papo “Esqueça um livro”.

  1. Eu amava a série! Não perdia um capítulo. Aliás, foi a partir dela que comecei a me interessar mais pela leitura.

  2. Eu acho interessante a ideia de uma nova temporada, Theresa na faculdade. Torci por muito tempo pra que a série voltasse, mas entendo que pode ser que momento já tenha passado. De qualquer forma é sempre bom rever os capítulos.

  3. Gi disse:

    Adorava a série e o livro é um dos meus queridinhos da minha estante.
    Muito bacana a entrevista.

  4. Bárbara Maia disse:

    A série e o curta é sensacional, nem sei mais quantas vezes eu já revi. A Mayara C. soube exatamente como cativar os telespectadores e é sempre um prazer rever a série, parece que não enjoa nunca. O que me falta agora é o livro.
    obs: Mayara eu sou sua fã!! hahaha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s